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O debate fora do lugar

Charge do artista Miguel, publicada no Jornal do Commercio, 15/10/2010

Fonte: Alberto Dines, do Observatório da Imprensa

Atenção aborteiros, abortistas, antiabortistas, dilmistas e serristas: retirem o assunto dos palanques. Vocês estão brincando com fogo – literalmente.

Os editais dos Autos da Fé já estão afixados nos templos e nas quermesses, as fogueiras estão preparadas. Guerras santas começam por ninharias (a questão do aborto jamais foi premente) e acabam em banhos de sangue.

Este debate ensandecido e despropositado sobre a descriminalização da interrupção da gravidez está empurrando o país para um modelo de república clerocrata, antirrepublicana, semidemocrática.

E a mídia tem grande responsabilidade neste arranca-rabo infantilóide. Nossa imprensa é, por tradição, sacristã: os grandes jornais sempre correram atrás das batinas e disputaram arcebispos e cardeais para lustrar suas páginas. Jamais chamaram um pastor luterano ou um intelectual agnóstico.

Mãos limpas

Quando se tratou de lembrar os 200 anos de fundação da imprensa brasileira, a presença de Hipólito da Costa como patrono do jornalismo foi determinante para que as comemorações fossem suspensas: além de maçom, denunciou ao mundo as barbaridades da Inquisição portuguesa.

Quando em 2008 o presidente Lula foi ao Vaticano acompanhado por seus entes queridos para assinar uma Concordata com o papa Bento 16, a grande imprensa – toda ela, sem exceção – manteve o assunto sob rigoroso sigilo, na clandestinidade. A pedido do governo. Uma imprensa altiva, libertária, não se importou em autocensurar-se ostensivamente. Em nome da fé, vale tudo.

Começava naquele exato momento o ensaio geral para a atual caça às bruxas que fatalmente nos conduzirá ao total desrespeito e esquecimento pelos direitos humanos. Convém lembrar que o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, apresentado pelo governo com toda a pompa e circunstância no final de 2009, foi abortado – a palavra é esta, não existe outra – para acalmar as lideranças católicas e evangélicas (ineditamente irmanadas) que orquestravam a oposição ruralista e da mídia. Os chefes militares adoraram, lavaram as mãos. Os civis também sabem fazer suas guerrinhas sujas.

O retorno

A igreja católica rasgou naquele momento uma corajosa história escrita ao longo de três décadas contra a tortura e o desaparecimento dos presos políticos, só para evitar que a nação brasileira começasse a encarar a possibilidade de debater a questão dos símbolos religiosos em prédios públicos, do casamento gay e… do aborto.

O infalível retorno dos bumerangues traz de volta a questão do aborto – vociferada, enraivecida, envilecida, brutalmente simplificada. E condenada a ser erradicada da nossa agenda política pela radicalização eleitoral que a mídia açula e assopra.

 

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Cientista político analisa relação entre religião e política nas eleições 2010

Fonte: JC Online

As eleições deste ano estão expondo de forma bastante incisiva amarras entre religião e política que, teoricamente, contradizem as premissas de um Estado laico, aquele que estabelece a neutralidade da nação na questão religiosa.

Candidatos ligados a igrejas batem recordes de votação, e temas que colocam em oposição ativistas e religiosos estão no centro do debate das eleições presidenciais, como é o caso do aborto e da união civil entre homossexuais.

Em Pernambuco, por exemplo, os dois deputados estaduais eleitos com maior votação são pastores ligados à igreja evangélica Assembleia de Deus: o pastor Cleiton Collins (PSC) e o presbítero Adalto (PSB). Para a Câmara Federal, o Pastor Eurico (PSB) também obteve uma votação expressiva. Ao mesmo tempo, vemos líderes religiosos fazendo campanha contra a candidata petista Dilma Rousseff, destacando suas posições em relação ao aborto.

Para o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Michel Zaidan, a eleição de evangélicos e a discussão são aspectos da cultura pós-moderna. “São categorias e grupos que se organizam para conquistar representação. Isso vem acontecendo com as mulheres, com os homossexuais, com os afrobrasileiros, com os ambientalistas e também, naturalmente, com os religiosos”, afirma. Ele explica que a crise das ideologias totalizantes, que tinham a pretensão de representar todos, provocou a fragmentação dessa representação. “Houve de fato uma fragmentação muito grande na esfera pública. Nós temos hoje uma segmentação da representação parlamentar”, diz.

Zaidan esclarece que o fato de os evangélicos estarem conquistando cada vez mais espaço nas diversas esferas do governo se deve à ‘disciplina’ inerente aos fiéis e aos objetivos das igrejas. “Os evangélicos, ao contrário dos católicos, têm um projeto de poder para o Brasil. Eles se comportam como um partido político e têm propósitos estratégicos de ganhar governos, prefeituras, bancadas na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal”, destaca o cientista político, que atribui tais projetos principalmente às igrejas neopentecostais e pentecostais, como a Assembleia de Deus.

O professor da UFPE crê que o crescimento da influência religiosa sobre os governos pode ser bastante nocivo à nação. “Há um risco grande de se ter um governo de intolerância, discriminatório em relação a quem não pertence à igreja. No geral, o voto religioso é um voto pouco tolerante, muito pouco aberto ao diálogo. É um voto teocrático, que não leva em consideração a racionalidade da política e do Estado”, defende. Para ele, esses políticos ‘religiosos’ costumam obedecer sobretudo a suas igrejas e seus pastores, e não ao governo, à Constituição ou à sociedade civil.

ABORTO – Zaidan acredita que a religião terá um papel central no debate deste 2º turno. “Ela vai influenciar os eleitores cristãos a não votarem em nenhum candidato que adote uma agenda que discuta essas questões do direito reprodutivo da mulher, do aborto, dos métodos anticoncepcionais e da união civil entre os gays. Ao meu ver, para o lado ruim, e não para o lado bom”.

Ele explica que, na sua opinião, esses são temas republicanos e não assuntos que possam ser monopolizados pelas igrejas. “São temas de interesse da sociedade civil. Questões de medicina, de saúde pública, de prevenção. Nunca poderiam estar sob a influência de nehuma igreja ou movimento religioso”, afirma.

“Infelizmente o nosso País não é um país de uma população esclarecida. É de uma população ainda muito conservadora e muito suceptível a acreditar nos apelos das igrejas”, conclui o professor.

Pela laicidade das propostas políticas

O Brasil é um Estado Laico. Ou seja, um Estado que, em tese, respeita as diversas práticas religiosas, mas suas políticas estão dissociadas da religião.

A prática, no entanto, demonstra que a liberdade religiosa ainda precisa ser consolidada no Brasil. A tentativa de imposição de dogmas religiosos nas políticas públicas afetam negativamente direitos básicos, inclusive à saúde e à dignidade. Quem não se lembra do Caso Alagoinha e tantos outros?

Um guia eleitoral que se pauta em propostas divinas nos parece duvidoso, já que a política se materializa com elementos tão concretos como a vontade política e o orçamento público.