Fonte: Amaury Medeiros, artigo publicado no Jornal do Commercio (27/10/2010)

To be or not be é velha questão shakespeariana sempre em dia. Desta feita com nuances políticas. Os especialistas afirmam que o tema foi um dos motivos principais da realização do segundo turno, o que impediu a vitória tida como certa da candidata oficial. Declarações precipitadas e negadas mexeram com a cabeça dos religiosos mudando os rumos traçados. Agora, na busca desesperada de votos -, que maravilha é o poder! -, além do chaleiramento da tropa verde, as conversões de última hora. O debate político sobre o aborto é mais uma disputa de votos que questão de princípios, de moralidade. Visitas não programadas aos conventos de freiras, conversas prolongadas com lideres religiosos, – de preferência aos evangélicos -, detentores das maiores massas de fiéis que seguem as orientações dos seus mestres, tendo forças suficientes para interferir decididamente na eleição de um presidente da República. Vocês constataram, por acaso, que os candidatos tenham visitado os centros espíritas, as sinagogas ou os templos budistas? Dificilmente o fariam por um motivo muito simples: essas instituições possuem pouco poder de fogo em frente às urnas. Não importa apenas o que na verdade eles pensam sobre o aborto: se são contra ou favor, ou se mudaram de opinião por motivo estritamente eleitoreiros. O que existe é uma realidade que não pode ser encoberta: mantendo-o na clandestinidade, milhares de mulheres, católicas e evangélicas, continuarão morrendo ao buscarem recursos perigosos no chamado aborto criminoso.

Cerca de 1 milhão de procedimentos são realizados por ano em nossos território e aproximadamente 250 mulheres morrem em consequência das complicações. Por esse motivo, os mais sensatos defendem a tese de que a descriminalização do aborto deve ser cuidada no plano da saúde pública. Difícil é ser favorável ao aborto, mas criminalizá-lo não resolve o problema. Curioso é que, os países desenvolvidos, inclusive a Itália onde se encontra a sede do poderio católico, tidos como esclarecidos e intelectualizados, legalizaram o aborto. Gostaria que vocês, ainda capazes de assistir propaganda eleitoral, atentassem para o que vou dizer, e mais importante, para o que os candidatos dirão. Existe um principio básico na medicina: a maneira mais segura de se evitar uma doença é prevenindo-a. O mesmo principio se aplica ao aborto. Claro que não vamos evitá-lo de todo, mas reduzi-lo a termos aceitáveis. De que maneira? Fazendo-se uma campanha pública através dos meios de comunicação, como se faz quanto ao uso das camisinhas para prevenir aids e das vacinas para poliomielite, enfatizando a importância do uso dos anticonceptivos orais e das pílulas do day ater (as quais comprovadas cientificamente não terem efeito abortivo), da ligadura de trompas em centros avançados e, sobretudo, de desburocratização e incentivo do emprego da vasectomia – o método mais seguro, simples, rápido, econômico e desprovido de qualquer interferência na sexualidade masculina. Que sejam criados postos para realização da vasectomia nos bairros, nas comunidades populares, nas cidades do interior. Que os convênios aceitem e paguem as vasectomias. Propalá-las e disponibilizá-las, eis a questão! Sempre ter em mente que, quando se realiza uma ligadura tubária evita-se que uma mulher engravide e, quando se faz uma vasectomia, que várias sejam engravidadas. É o óbvio ululante de Nelson Rodrigues: se a mulher não engravida, não há aborto. Se vocês concordam com o que foi exposto, vejam se algum candidato defenderá uma política semelhante. Para finalizar, não esqueçam: pior que uma gravidez indesejada, é ser um filho indesejado. Pensem bem antes de votar e o façam de acordo com suas consciências.

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