Fonte: JC Online

As eleições deste ano estão expondo de forma bastante incisiva amarras entre religião e política que, teoricamente, contradizem as premissas de um Estado laico, aquele que estabelece a neutralidade da nação na questão religiosa.

Candidatos ligados a igrejas batem recordes de votação, e temas que colocam em oposição ativistas e religiosos estão no centro do debate das eleições presidenciais, como é o caso do aborto e da união civil entre homossexuais.

Em Pernambuco, por exemplo, os dois deputados estaduais eleitos com maior votação são pastores ligados à igreja evangélica Assembleia de Deus: o pastor Cleiton Collins (PSC) e o presbítero Adalto (PSB). Para a Câmara Federal, o Pastor Eurico (PSB) também obteve uma votação expressiva. Ao mesmo tempo, vemos líderes religiosos fazendo campanha contra a candidata petista Dilma Rousseff, destacando suas posições em relação ao aborto.

Para o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Michel Zaidan, a eleição de evangélicos e a discussão são aspectos da cultura pós-moderna. “São categorias e grupos que se organizam para conquistar representação. Isso vem acontecendo com as mulheres, com os homossexuais, com os afrobrasileiros, com os ambientalistas e também, naturalmente, com os religiosos”, afirma. Ele explica que a crise das ideologias totalizantes, que tinham a pretensão de representar todos, provocou a fragmentação dessa representação. “Houve de fato uma fragmentação muito grande na esfera pública. Nós temos hoje uma segmentação da representação parlamentar”, diz.

Zaidan esclarece que o fato de os evangélicos estarem conquistando cada vez mais espaço nas diversas esferas do governo se deve à ‘disciplina’ inerente aos fiéis e aos objetivos das igrejas. “Os evangélicos, ao contrário dos católicos, têm um projeto de poder para o Brasil. Eles se comportam como um partido político e têm propósitos estratégicos de ganhar governos, prefeituras, bancadas na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal”, destaca o cientista político, que atribui tais projetos principalmente às igrejas neopentecostais e pentecostais, como a Assembleia de Deus.

O professor da UFPE crê que o crescimento da influência religiosa sobre os governos pode ser bastante nocivo à nação. “Há um risco grande de se ter um governo de intolerância, discriminatório em relação a quem não pertence à igreja. No geral, o voto religioso é um voto pouco tolerante, muito pouco aberto ao diálogo. É um voto teocrático, que não leva em consideração a racionalidade da política e do Estado”, defende. Para ele, esses políticos ‘religiosos’ costumam obedecer sobretudo a suas igrejas e seus pastores, e não ao governo, à Constituição ou à sociedade civil.

ABORTO – Zaidan acredita que a religião terá um papel central no debate deste 2º turno. “Ela vai influenciar os eleitores cristãos a não votarem em nenhum candidato que adote uma agenda que discuta essas questões do direito reprodutivo da mulher, do aborto, dos métodos anticoncepcionais e da união civil entre os gays. Ao meu ver, para o lado ruim, e não para o lado bom”.

Ele explica que, na sua opinião, esses são temas republicanos e não assuntos que possam ser monopolizados pelas igrejas. “São temas de interesse da sociedade civil. Questões de medicina, de saúde pública, de prevenção. Nunca poderiam estar sob a influência de nehuma igreja ou movimento religioso”, afirma.

“Infelizmente o nosso País não é um país de uma população esclarecida. É de uma população ainda muito conservadora e muito suceptível a acreditar nos apelos das igrejas”, conclui o professor.

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